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Caros amigos o blog Historiando: debates e ideias visa promover debates em torno de vários domínios de História do mundo em geral e de África e Moçambique em particular. Consta no blog variados documentos históricos como filmes, documentários, extractos de entrevistas e variedades de documentos escritos que permitirá reflectir sobre várias temáticas tendo em conta a temporalidade histórica dos diferentes espaços. O desafio que proponho é despolitizar e descolonizar certas práticas historiográficas de carácter eurocêntrico, moderno e ocidental. Os diferentes conteúdos aqui expostos não constituem dados acabados ou absolutos, eles estão sujeitos a reinterpretação, por isso que os vossos comentários, críticas e sugestões serão considerados com muito carinho. Pode ouvir o blog via ReadSpeaker que consta no início de cada conteúdo postado.

02 setembro 2014


 
Kidjo
É uma mulher de várias facetas. A mãe de todas elas é o facto de ser africanista. O mundo conhece-a mais como cantora, mas ela é, acima disso, uma activista dedicada às crianças, sendo por isso embaixadora de boa vontade do UNICEF.
 A promoção da mulher e da rapariga também são uma causa para a bebinense Angélique Kpasseloko Hinto Hounsinou Kandjo Manta Zogbin Kidjo, ou simplesmente Angélique Kidjo. Durante cerca de dez dias até domingo, a cantora que entre nós se popularizou com o tema “Agolo” foi estrela nos quatro espectáculos (o último deles no encerramento da FACIM) da quarta edição do More Jazz Series, festival organizado pelo saxofonista moçambicano Moreira Chonguiça. Foi o fascínio dos fãs que a passaram a conhecer melhor, pois para além de cantar também explanava as causas que abraça. Uma dessas causas é, também, a promoção do continente, pretexto para esta entrevista com a beninense:
- Tem ideia do quão poderosa é a sua música?
- Não tenho! Não tenho em absoluto a noção desse poder. Quando faço música, sinceramente não olho para esses detalhes. Se ela tiver algum poder, tomara, gostaria que fosse o poder de levar as pessoas a levarem melhor as suas vidas, que elas saibam quem elas são e o que é que podem fazer melhor para si e para o próximo. Isso é, na verdade, o poder da música, o poder de levar as pessoas a encontrar as soluções para a sua vida, para a vida do próximo, para a vida dos nossos países e, especialmente, para o meu caso, para a vida de África.
- Vive há muitos anos fora da sua Cotonou e do seu Benim mas conserva muito do seu país e do seucontinente, a cantar ou não. Como é que consegue manter as suas origens depois da tanta estrada quepercorreu ao longo de décadas fora de África?
- Eu venho sempre a África. Se não ao Benin, vou a muitos outros países do continente. África toda é também minha terra e uma inspiração presente não só quando estou cá fisicamente, porque espiritualmente, acreditem, eu estou sempre aqui. Já fui à Tanzania, Tunísia, Senegal e em muitos outros países, numa lista a que se acrescenta agora Moçambique. Em todos os países africanos em que estive senti-me em casa. Estou agora em casa. Antes de partir, eu nasci em África, fiz aqui a minha escola primária, secundária e os meus estudos universitários. Por outro lado, nasci numa família em que a cultura é muito importante e durante os meus tempos de criança sempre me aproximei dos mais velhos para colocar perguntas diversas sobre muitos temas. Sou uma pessoa que gosta de perguntar, porque assim ensinaram-me, porque assim tive e tenho a certeza de que aprendo. Portanto, quando aprendes quem tu és e de onde vens, nunca deixarás de ser o que és. Eu nunca quis ser diferente do que alguma vez fui, sou a mesma de há tempos atrás. Sou africana e nunca o negarei, é a minha identidade e isso sempre será evidente em mim. Não tenho nada a cobiçar na Europa ou na América, não sou nem europeia nem americana. O que é bom na cultura deles implemento na minha mas nunca deixo de ser o que sou, nem mesmo interrompo o que sou para estar na pele deles, porque eu sou eu, sou africana. Não apenas por uma questão de pertença, o meu continente é mesmo uma inspiração. As coisas que ainda temos que superar, as nossas virtudes, a nossa história, incluindo a de sofrimento, como o tempo da escravatura, são uma eterna inspiração para que cada um de nós batalhe para que nos tornemos melhores do que somos e alcancemos o que tanto queremos.
- África está em muitos dos seus pronunciamentos e uma das mensagens que tem transmitido é a da esperança no futuro. Com tudo o que se passa hoje, como as várias crises que assolam o continente, que futuro augura para os africanos?
- Somos um continente de desafios. Enfrentamos hoje desafios enormes, talvez os maiores do que alguma vez enfrentámos no nosso passado. Por exemplo, em 2050 África será o continente com maior número de jovens no planeta. Estamos preparados para isso, em termos sociais, políticos e económicos? Enfrentamos desafios de desenvolvimento e, sinceramente, apesar de algumas evidências de que algo esteja a ser feito em alguns países, não vejo tanto a ser feito para enfrentar os nossos desafios do futuro. Naturalmente que há que encorajar alguns esforços que estão a ser feitos, mas mesmo esses precisam de ser levados muito mais a sério. Penso que em termos de continente a aposta séria que deve ser levada a cabo é a criação de infra-estuturas. De forma mais ousada, porque este é o ponto em que nos encontramos mais atrasados, em que não nos conhecemos e não partilhamos nada ou quase nada uns dos outros, dentro de África. Isso pode ser visto apenas do ponto de vista económico mas não é só em termos de economia que é nefasto. Mesmo em termos culturais, em que sabemos pouco uns dos outros, em que as indústrias culturais não fluem como devia ser, há que trabalhar muito.
- Até que ponto em termos culturais África não se conhece a si mesma?
- Por exemplo, para além dos artistas mais badalados, por exemplo aqueles que actuam em palcos de fora, são repercutidos. É uma cadeia grande, que para mim é absurda. Ou seja, para eu ser um artista africano de renome devo ir primeiro para fora? Para que alguém conheça a música de Moçambique, do Benin, do Senegal ou de outra parte precisaríamos mesmo dos outros? Não, não deve ser assim. Volto à economia: nas estatísticas sobre o comércio internacional deparamo-nos que o comércio intra-africano, ou seja entre os países africanos, é apenas de um por cento. Isso não é normal. Temos dentro de África muito ou quase tudo o que precisamos, mas não alcançamos. É uma questão de vontade política, o desenvolvimento de infra-estuturas como estradas, linhas férreas, portos, etc. sei que no vosso país, como em alguns outros, se está a apostar e muito bem nas infra-estruturas, mas, olhando para o continente como um todo, muito há por fazer. Isso é apenas um exemplo que dou. Depende de nós, africanos, queremos nos ver diferente do que o mundo nos vê hoje. Questionemos as opções que nos são impostas e lutemos para as melhores soluções para os nossos países e povos. Incluindo na cultura. Podemos, sim, dizer ao mundo “olhem, nós podemos fazer melhor para nós mesmos”. É tempo também de os nossos líderes africanos olharem para o seu povo como um potencial para um continente melhor, saberem que se investirem nos seus povos, em termos de educação e saúde, terão países mais ricos. A corrupção é uma ponta de icebergue que deve ser derretida, porque também, no nosso caso, mina muito o desenvolvimento. A corrupção existe também na Europa e na América, mas porque os cidadãos têm educação, os seus países são desenvolvidos. As vagas de emigração dos países africanos para a Europa ou América, as fugas de cérebros, etc., não existiriam se se trabalhasse efectivamente para os nossos países. Por tudo isso, para mim, tem que haver um investimento forte na educação, principalmente na educação da rapariga…
- … porquê sublinha a educação da rapariga?
- Porque durante décadas, séculos até, a mulher e rapariga foram tidos como seres inferiores e nada mais do que corrigir essa aberração secular. Está provado que com o investimento na educação da rapariga, o PIB dos países sobe. Porquê? Porque uma rapariga educada, quando for mãe colocará os seus filhos, rapaz e rapariga, na escola e assisti-los de forma igual. Esse investimento também fará com que a educação destes dois filhos gere netos educados, com capacidade de educar mais. Os benefícios da educação para a sociedade são óbvios. Mais: com uma mulher educada um marido não será o único com a responsabilidade de sustentar o lar. Com recursos conjuntos planifica-se muito, incluindo o número de filhos. A partir da planificação da economia doméstica, com a mulher envolvida, muito mais se poderá planificar, como a educação. Se planificarmos melhor a educação, por exemplo, não teremos tanta gente a cantar a tom alto, lá fora, e com um tom sarcástico, que África é uma terra pobre, de gente pobre. Essas pessoas que cantam isso são as mesmas que têm negócios e tiram de África vários milhares de milhões de dólares todos os anos. Em França, na América ou em qualquer outra parte jamais dizem que África é rica, o que de facto é. Portanto, temos uma grande responsabilidade de transformar a nossa sociedade africana, transformar os nossos países e s nossos continentes. Temos definitivamente que mudar para o melhor. Alguns países estão no caminho certo. Moçambique é um deles, que está a mudar, passo a passo, um passo mais rápido que o outro rumo ao que deve ser feito por todos nós. Temos que mudar muito mesmo, incluindo a nossa forma de nos relacionarmos com os nossos parceiros externos. Como é que se explica que a Nigéria, há muitos anos uma potência em áfrica, um colossal produtor de petróleo, com exportações impressionantes, só agora, há poucos anos, é que começou a construir uma refinaria. Ou seja, compram o petróleo da Nigéria, refinam-no e vendem-no de novo à Nigéria, ao povo nigeriano. Isto é de loucos, não é? Já é momento de acabarmos com aberrações como esta. Eu acredito na nossa capacidade de transformar o nosso continente.
- Tem exemplos de países africanos que pode citar para que outros sigam e se transformem para um nível de desenvolvimento aceitável?
- O Botswana é um bom exemplo para todos. A partir dos diamantes, a sua principal riqueza, criou para o seu povo um nível de vida incrivelmente melhor. A população do Botswana, em termos estatísticos, não é comparável à população sul-africana ou moçambicana, mas a fórmula pode ser a mesma ou nela inspirada. O vosso país está a fazer muito boas coisas. Vi aqui obras de construção de estradas e foi-me dito que há uma aposta muito grande em termos de infra-estruturas. É o caminho certo. Aliado a isso, é necessário olhar-se para as outras potencialidades e fazer delas ponto de partida para o desenvolvimento deste país que é lindo. Seria para mim decepcionante não construir o vosso país como o estão a construir. Com uma rede de estradas que ligue vários pontos do norte e os do sul, o que é produzido no norte pode ser facilmente consumido no sul ou no centro a custos aceitáveis, o que é produzido no sul chegaria mais facilmente ao norte e ao centro. Para além disso, o comércio com os países vizinhos pode ser incrementado e com vantagens para todos. Por outro lado, o sector fiscal tem que ser justo. Se os cidadãos pagam impostos, tem que haver a transparência no destino que se dá a essas contribuições, proporcionando-se melhores serviços aos cidadãos, havendo uma gestão o mais transparente possível. A transformação a que me refiro preconiza isso.
- Uma das suas batalhas é contra as desigualdades no mundo. Até que ponto elas podem ser combatidas?
- O ponto que eu não percebo e ninguém ainda me deu uma resposta para a seguinte questão: como é que este continente que todos sabemos que tem tanta riqueza tem tanta gente a viver na pobreza. Não sou boa a matemática e julgo não ser necessário sê-lo para vermos que esta equação é vergonhosa. Países com riqueza na Europa conseguem ter melhores serviços para o seu povo mas aqui acontece justamente o inverso. Porquê? É uma das desigualdades que não me agrada. Outra: em África há desigualdade do género. Porque é que os rapazes vão e são acarinhados a ir à escola e as raparigas não? Apregoou-se que as mulheres são menos inteligentes, o que não é verdade, é de loucosfazer passar isso por verdade. Era uma forma de exercício de poder que não faz sentido. Meu pai dizia: o homem digno desse nome não tem medo da inteligência da sua parceira. Aquele que a esconde na cozinha está a condenar a sua família à pobreza. É uma hipocrisia criminosa, essa. Quando o BokoHaram raptou aquelas raparigas, justamente porque são raparigas não se fez qualquer movimento para resgata-las nem para condenar o acto. Escandaloso! Se fossem rapazes a Nigéria se teria mobilizado.

- Acredita que a actual geração de africanos pode eliminar essas desigualdades?
- Se começarmos agora, claros que vamos a tempo. Mas o problema está mesmo aí, no começo. Se começarmos já, veremos os resultados em pouco tempo. Se não começarmos é um pesadelo adiado. Se virmos essas transformações e os resultados que elas trarão na vida diária, os que querem manter o status quovão mudar de ideia, o que acontece a África não vai continuar assim, porque os estrangeiros que deslealmente fazem negócios em África não continuarão assim.
- Uma das suas facetas é a do activismo, incluindo a parceria com o UNICEF, com quem tem trabalhado. Crê que o seu engajamento encontra soluções para os problemas que se predestina a combater?
- Creio, sim! As pessoas ouvem-me, sinto isso. A África de antes, de há alguns anos, não é a mesma de hoje mas, obviamente, há muitas mentalidades a mudar. Gostaria de ver mesmo diferenças na forma de pensarmos o continente. Há que dar direcção às mudanças que estão a ocorrer, em alguns casos dando-lhes o melhor discernimento. A mudança de mentalidades inclui também mudanças na forma como encaramos algumas convicções culturais. Ninguém me vai dar cultura na falta de educação de raparigas e na mutilação genital feminina, por exemplo. Dirão que é uma tradição, mas julgo que pelos seus efeitos, que incluem dificuldades para que as mulheres tenham filhos e mortes durante o parto, não dão orgulho nem dignidade a ninguém.

- Uma das críticas que faz é à falta de conhecimento da história de África pelos africanos…
- … oh, sim! Falando da história do nosso continente, a começar pela da escravatura, é uma frustração. Sabemos de tudo sobre o nosso passado a partir de livros escritos por aqueles que nos escravizaram, pelos que geraram lucros grandes à custa dos nossos recursos, incluindo humanos, ao longo de séculos. Quando viajas pelo mundo e encontras um descendente de escravos africanos, a relação que se desenvolve à partida é de fricção, porque eles sofreram uma lavagem cerebral que lhes faz pensar que nós, que ficámos em África, os vendemos no comércio negreiro. Eles cometeram o crime, não reconhecem o crime e fazem-nos responsáveis por este crime. Nunca falam dos africanos que se rebelaram contra a escravatura. Alguém disse-me, não há muito tempo que “não é a nós, europeus, que cabe contar a parte positiva da vossa história, é a vocês que isso cabe”. De que é que estamos à espera?
- Ainda que grande parte das suas audiências não se perceba o que diz nas músicas, por não entender a língua em que canta, entende-se a mensagem quando a explica, em inglês ou francês, que elas são maioritariamente de activismo. Quando compõe é essa a intenção?
- A música em África é exactamente isso, um activismo. Cantamos causas, ambições, vontades, ambições… A nossa história não é escrita, na maioria das vezes, e cabe a nós divulga-la. A música é um dos meios para tal. Eu dedico muito tempo a ouvir os mais velhos. A minha avó materna contou-me muitas histórias do tempo da escravatura, que lhe foram contadas por gerações anteriores e remontando do tempo da escravatura. Falou-me de gente da comunidade e de familiares aprisionados e vendidos para escravatura. Sinto que devo escrever essas histórias, antes que a minha memória desapareça. Os meus ancestrais estavam na linha da frente da resistência à escravatura e sei das suas histórias pela tradição oral, que inclui cânticos no seio dos meus familiares. Dizia, essa história faz também as minhas canções como forma de partilha. Não tenho a ideia imediata de incitar ao activismo, mas a minha ideia final é essa, fazer com que mais de nós seja sabido. Sei muito da história do continente não necessariamente por via da leitura de livros, porque poucos, mas colocando questões aos mais velhos, por exemplo. Sei sobre Samora Machel, Kwame Nkrumah, Julius Nyerere mais assim do que por via de uma produção historiográfica activa.Existe alguma coisa e li, mas podia ser mais, podia ser mais divulgada e sobretudo podia preconizar mais o continente. Gostaria que mais africanos, incluindo cientistas, historiadores africanistas, trabalhem de modo a que tenhamos menos crianças a sonharem em ir à Europa ou América no lugar de sonharem com o seu próprio continente. Façamos da geração deles uma geração feliz em África. Na verdade, não precisamos muito da Europa ou da América para sermos felizes, é uma questão de olharmos para as opções que existem dentro do nosso continente.
GIL FILIPE, In: Notícias, Quarta, 03 Setembro 2014




Escritora brasileira Madú Costa

A escritora afro-brasileira Madú Costa, que durante duas semanas esteve em Maputo a trocar experiencias com artistas nacionais, especialmente escritores jovens moçambicanos, traçou um balanço positivo da sua primeira viagem à África, afirmando que concretizou em quase 100 por cento com aquilo que tinha preconizado nessa deslocação a Moçambique.
Para esta escritora que também é cantora e contadora de histórias, o ponto mais alto foi a sua participação no Festival Nacional da Cultura que decorreu de 14-19 do corrente na cidade de Inhambane, evento que celebrou a nossa moçambicanidade, Madú Costa diz que saiu deste evento enriquecida pela enorme diversidade cultural do país. No festival, foi palestrante de um tema sobre a “Democracia racial no Brasil” e a questão da afirmação do negro.
Nesta festa da cultura, a escritora aponta que, “fui recebida com muito amor, carinho, respeito e admiração pelos moçambicanos. Ali deu para eu entender melhor a questão da preservação e valorização das nossas raízes, daqui de África”.
A cantora destacou ainda a importância do Festival Nacional da Cultura como um porto que no futuro poderia aportar mais artistas do seu país, para que muitos tenham um maior conhecimento sobre as suas origens. “Eu logo que pisei o solo moçambicano tornei-me moçambicana. Agora sou moçambicana! Eu me moçambicanizei. No aeroporto, fui recebido por amigos que me amarraram a capulana, um dos maiores símbolos do país e ainda ganhei um ramo de flores. Foi tudo muito emocionante, destaque para a escritora Fátima Langa, o Alex Dau e os jovens escritores do Khuphaluxa”.

A passagem de Madú Costa por Maputo, não passou despercebida. Ela deixou um pouco do seu perfume e marca pessoal por onde passou. Isso aconteceu na Casa-Museu José Craveirinha na Mafalala, onde foi recebida pelo filho do poeta, Zeca Craveirinha que descreveu a trajectória de luta de José Craveirinha. A brasileira deixou-se encantar e emocionou-se com quantidade de acervo decorativo na casa do poeta-mor. Madú Costa, antes de deixar aquela casa, teve tempo de ler alguns versos da vasta obra de Craveirinha.
Outro evento que superou todas as suas expectativas foi o encontro com os jovens do movimento literário Khuphaluxa que juntamente com o Centro Cultural Brasil e Moçambique dedicaram a escritora um sarau cultural que comportou teatro, poesia, música e dança. Foi uma festa animada em que, mais uma vez, afinada a brasileira, não deixou os seus créditos em mãos alheias…cantou, dançou e declamou e foi ovacionada. Os jovens fizeram uma homenagem merecida e ao nível de uma grande personalidade.

O mesmo aconteceu na Noite de Poesia, organizado pelo Movimento Poetas D`alma, dinamizado por Felling Capela, nosso colega de imagem. “Eu fiquei encantada com a pujança e tanta energia dos jovens poetas! Aquilo sim, é um espaço de literatura de intervenção, porque o poeta é um ser que se indigna e questiona as coisas do seu tempo. Foi interessante ouvir eles declamarem combinando com a música. A Shoodi que actuou lá naquele dia, foi fantástica. Quero um dia, se Deus quiser, voltar àquele centro cultural. Amei o ambiente de casa cheia”.
Não foi só da palavra que Madú Costa viveu em Maputo. As artes cénicas, nomeadamente o teatro, fizeram parte do brinde desta artista. Com efeito, no Teatro Avenida, viu a peça “Chapa100-My Love” e teve a oportunidade de privar com a decana Manuela Soeiro, Directora Geral da Companhia Mutumbela Gogo. “È uma obra de intervenção social, que cobra as autoridades governamentais para ter em conta esta questão do transporte na cidade. Procura também humanizar o cobrador e o chapeiro que são sempre vistos como profissionais de categoria subalterna. E o final da obra, é interessante ver, a participação do público infantil a subir o “chapa”…como forma de mostrar a dura realidade que a sociedade vive”.
Foi ainda ver a obra “Niketche”, uma obra encenada por Alex Elliot a partir da obra da Paulina Chiziane, com o mesmo nome. “Olha, na minha terra a poligamia é um fenómeno raro, diferentemente da realidade moçambicana: homem casado com cinco mulheres! Oba! Foi uma peça que para os estrangeiros e nacionais fazerem reflexão sobre o papel da mulher na sociedade”. A peça passou no Centro Cultural Franco-Moçambicano.
A Escritora apresentou ainda uma palestra na Escola de Jornalismo, na Universidade Eduardo Mondlane e na sede da Associação de Amizade e Solidariedade com os Povos (AMASP). E ainda houve tempo para se despedir do seu amigos no espaço cultural “Clube 21” na Feira Popular do músico Ildo Ferreira onde não faltou comida típica moçambicana, música e boa conversa animada.
A cantora que regressou a sua cidade ontem, já agendou nova visita a Moçambique para breve, desta vez, segundo conta, “gostaria de sair para as zonas rurais, conhecer as crianças moçambicanas e quiçá, montar um projecto educacional com criança.

FOTOS: ALBINO MOISÉS

In: Notícias, Quarta, 27 Agosto 2014



Havia dúvidas sobre se o M’saho iria acontecer, depois de Inhambane ter sido palco do Festival Nacional de Cultura. Mas, imediatamente, a organização do evento tratou de dissipar dúvidas e comunicou que, de facto, aquele festival de timbila teria lugar no último final-de-semana do mês de Agosto, como religiosamente acontece.
“Mas será que este evento teria o sucesso desejado?”, cogitavam muitos. Porém, estas dúvidas foram se dissipando logo no início dos preparativos do evento, na medida em que Zavala, particularmente Quissico, começou a “vestir-se a rigor” para o M’saho.
Nem o mau tempo, que ameaçou descarregar violentas bátegas de chuva durante o fim-de-semana, muito menos os fortes ventos, que espalhavam nuvens de poeira, fizeram as pessoas desistirem de estar presentes no Miradouro de Quissico. O palco do festival de timbila.

Mas o M’saho é M’saho. E não há nada, nem festival algum que vai impedir que ele se realize. É assim como pensam os organizadores desta festa e é assim como procederam. Vários grupos fizeram-se ao palco do Miradouro, ponto a partir do qual é também possível observar um outro espectáculo criado pela natureza: o longo lençol verde formado, na sua maioria, por  palmeiras e que é atravessado pelas límpidas e cristalinas águas das oito lagoas de Quissico que se comunicam com o Oceano Índico. Beleza paradisíaca.

O Miradouro esteve cheio. Gente vinda de diversos pontos do país, mas também de outras paragens do mundo. Ficaram
lá para ver a festa da timbila começar. E iniciou com o mkwaio, que é a selecção dos melhores marimbeiros existentes em todo o distrito de Zavala, convidado para cantar o Hino Nacional com recurso a timbilas. Depois se seguirá a exibição dos ritmos e dos cânticos. Fortes Fortes. Onde os bailarinos exibem coreografias estonteantes, e executam simulações guerreiras, com escudos, flechas e cajados, que nos vão fazer viajar pelos tempos de Ngungunhane e outros heróis, reis e imperadores.
Um espectáculo de encher os olhos. Depois foi o desfile dos grupos, sendo que a surpresa para nós foi a entrada de Timbila ta Guilundo, do mestre Venâncio Mbande. É que, quando anunciaram a subida desta orquestra, Venâncio Mbande retirou-se do palco, como que a querer dizer: “Agora é a vez dos meus filhos. Dos meus descendentes. Eu já fiz a minha parte. Por isso quero deixar os meus meninos fazerem o que sabem fazer. Mostrar o que eu ensinei”. E Venâncio Mbande saiu e foi sentar numa cadeira a ver os filhos tocarem e dançarem loucamente. E aqui são os filhos, netos e demais familiares de Venâncio Mbande quecompõem este agrupamento, que na linha do seu fundador, continua a desfilar qualidade.
Foram subindo vários outros grupos, mas a orquestra Timbila de Chizoho, criado pelo Professor Cremildo Pedro Nhantole, é um dos melhores da actualidade. E eles conseguiram se impor. Fazem furor quando sobem ao palco. Uma das coisas que impressiona é o facto de esta orquestra ser composta por crianças. Na sua maioria meninas. E aqui queremos recordar que, no ano passado, foi escolhido para representar Moçambique num festival internacional de cultura, que decorreu na França. Este grupo infanto-juvenil tem uma alta capacidade de criatividade e coreografias giras.
Vendo este agrupamento, fica claro que está em curso o processo de passagem de testemunho dos mais velhos para os petizes, sobre os valores desta expressão cultural. Mas também temos a Timbila de Muane, que é um grupo extremamente forte e versátil.


FRANCISCO MANJATE, In: Notícias, Quarta, 03 Setembro 2014

VIII FESTIVAL NACIONAL DE CULTURA: HOMENAGEM MERECIDA AO PRESIDENTE GUEBUZA

Homenagem  Cultural ao Presidente Guebuza



Ao escrever este artigo, pretendo sublinhar, na minha opinião, como moçambicano e com orgulho de ser, um certo reconhecimento a homenagem ao Presidente da República, Armando Emílio Guebuza, no VIII festival nacional de cultura, que decorreu em Inhambane de 14 a 19 de Agosto corrente.
O festival realizado pelo ministério da cultura, sob lema “Unidade na Diversidade Cultural, Inspiração para a Construção da Moçambicanidade”, é um evento que prova que os moçambicanos são unidos e capazes de conviver e pensando no desenvolvimento do nosso belo país que tanto exige de nós para crescer e atingir grandes patamares em tempo não longo. Este convívio nos fortalece de modo a que renovemos esforços de irmandade para pensarmos o futuro do nosso país, pois dele crescerá o que hoje plantarmos.
Numa altura em que vários sectores de opiniões, divergem quanto a luta e entrega de Armando Guebuza, é importante salientar que na vida há momentos bons e maus, nenhum humano é tão certeiro tanto quanto Deus, mas o importante é saber como lidar com essas dificuldades e sempre com uma visão de apostarmos no crescimento social, cultural e económico. O ministério da cultura, ao reconhecer este facto, não significa que esteja sob uma manipulação política ou de outras correntes, mas sim, procura valorizar os seus feitos em ter usado da cultura como uma fonte de união, consolidação da paz, progresso e auto estima.
E abordando sobre a auto-estima, o chefe de Estado cria condições, através da cultura, de valorizarmos ao que nos pertence e a enaltecer a nossa moçambicanidade. Ser um país que não opta pela guerra para a resolução de desavenças, um povo que abandona todas as formas ou práticas que atentem contra a segurança de Estado. E é nítido este esforço, em convergência cultural em todas as camadas sociais.
Houve grande avanço e as pessoas se aproximam cada vez mais com objectivos de unir esforços para centralizar várias opiniões de construção do nosso belo país. As várias expressões culturais são, com certeza, uma fonte de inspiração.
A entrega do Presidente da República, Armando Guebuza, nos seus 10 anos de mandato, a cultura tomou um rumo significante, numa altura em que o país conhece outras áreas de desenvolvimento como as de recursos naturais. O nosso presidente provou que, o povo, primeiro deve ser conhecido por aquilo que é; e em última instância pelo que possui. A cultura é a base, a nossa identidade, a nossa forma de conviver mesmo com as nossas diferenças, e é nela onde buscamos a paz, prosperidade e progresso; os recursos naturais, são sim importantes para aumentar o desenvolvimento sustentável, mas numa nação unida e com sonhos.
É neste sentido que o presidente da republica age de uma forma inteligente, o que aos olhos de alguns passa despercebido. Nunca se desenvolve um povo não unido e sem amor e muito menos que não se conhece. O resto é connosco, o empenho em seguir este legado é nosso. A luta é nossa. Os resultados serão nossos e não apenas do ministério da cultura ou do chefe de Estado.
É preciso reconhecer esse esforço de um homem que se dedicou, para muitos, nos seus dois mandatos em incentivar uma criação bienal do festival nacional de cultura. Um encontro constante da nação numa celebração total. E esta homenagem, é, sem dúvidas, merecedora às realizações feitas ao longo da sua governação que acontecem numa altura em que se despede com muito orgulho por ter conseguido criar possibilidade de estimularmos a união para a solução dos nossos problemas.
É de louvar o Ministério da Cultura que tem vindo a levar a cabo este evento com sucessos a partir da sua organização e demonstração; produção e consumo da nossa identidade. A cultura, dir-se-ia que é o pólo para que o desenvolvimento do país se efective.
                                             
Júlio Marto,  In: Notícias,  Quarta, 03 Setembro 2014




Mais do que um momento de exibição e exaltação da cultura moçambicana, os festivais nacionais da cultura vão-se assumindo, a cada edição, como ocasiões de transmissão da nossa identidade cultural às novas gerações e de preservação do património cultural tangível e intangível de Moçambique.
Foi o que se testemunhou no VIII Festival Nacional da Cultura que decorreu em Inhambane, de 14 a 19 deste mês, no qual artistas de diferentes gerações partilharam a sua experiência naquele que é o maior palco e a maior festa cultural do país.
Com muita responsabilidade e patriotismo, aquela província acolheu as onze delegações nacionais e nove estrangeiras, em que se destacaram seis países, nomeadamente Suazilândia, Egipto, Turquia, China, Maurícias e França.
Durante os seis dias do evento, Inhambane tornou-se num preferencial destino para artistas, académicos, turistas, agentes económicos e muitos outros que para lá se deslocaram para assistir ao festival e desfrutar das belas paisagens, locais históricos e da rica gastronomia nacional.
E viu-se um pouco de tudo: música, dança, poesia, cinema, humor, moda e cinema. Estas expressões contaram com uma participação massiva de jovens talentos que demonstraram que há cada vez mais interesse no seio dos artistas de palmo-e-meio em aprenderem a nossa cultura.   
A coreografia da dança Zore, apresentada por 1500 crianças, que culminou com o traçado da palavra “Wuyani” (que significa bem-vindos em bitonga), marcou a recepção aos participantes do evento, na cerimónia de abertura, realizada no Estádio Municipal de Muelé, na cidade de Inhambane.
Aquele recinto desportivo, recentemente reabilitado, foi o palco principal do evento, onde desfilaram algumas das maiores estrelas da nossa música e dança, com destaque Jimmy Dludlu, Jaco e Otis, e também as bandas Timbila Muzimba, Gorwane, Djaakas,Valongo, Massukos e a Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD).
Se a cidade de Inhambane foi a capital da dança e da música, já a da Maxixe, localizada na margem oeste da baía de Inhambane, acolheu as feiras de gastronomia, palestras e lançamentos de livros.
Na praça de Vilankulo, na Maxixe, o ambiente era caracterizado por uma grande procura de pratos nacionais, tanto por cidadãos nacionais e estrangeiros que viram aquela como sendo uma oportunidade única para se deliciarem da gastronomia moçambicana.
O lançamento dos livros “Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio”, do poeta moçambicano Japone Arijuane; e “Fany Mpfumo e Outros Ícones”, da autoria de Samuel Matuss, marcaram igualmente o evento. Houve também palestras e oficinas de cultura, destacando-se a sobre a candidatura do Tufo, Xigubo e Mapiko à Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A mesma foi proferida pelo director-adjunto da Direcção Nacional da Acção Artística do Ministério da Cultura, Almeida Nhampa.
Entretanto, foi com a dança Xigubo, apresentada por 500 crianças do distrito de Morrumbene, que, desenhando a palavra “Salane” (que quer dizer adeus em xitswa), no relvado sintético do Estádio Municipal de Muelé, que Inhambane se despediu dos artistas e do público, marcando o fim do VIII Festival Nacional da Cultura.

SOFALA INSPIRA-SE EM INHAMBANE
Depois de o primeiro-ministro, Alberto Vaquina, anunciar a província de Sofala como a anfitriã do IX Festival Nacional da Cultura, o chefe da delegação daquela província, Inácio Alice, falou ao “Notícias” manifestando a sua felicidade e surpresa por ter a sua terra a acolher o próximo festival, em 2016.

Na ocasião, o nosso interlocutor prometeu que Sofala tudo faria para fazer um festival melhor, inspirando-se em Inhambane, que foi, segundo ele, uma província hospitaleira e acolhedora.
Não era para menos, Inhambane tinha-se preparado ao detalhe, e a Sofala só resta apreender os aspectos positivos e aplicá-los daqui a dois anos, e saber dignificar o nome e a honra daquela província do centro do país.
 “Não esperávamos ser escolhidos para acolher o próximo festival. O que nos resta agora é nos inspirarmos em Inhambane para fazer um festival melhor. A nossa estadia nesta cidade foi agradável. Não temos motivos para lamentar e prometemos retribuir a hospitalidade em 2016”, disse.
No VIII Festival Nacional da Cultura, Sofala fez-se representar por 80 artistas provenientes dos 13 distritos daquela província, numa disputa que envolveu 300 participantes.

FESTIVAL POSITIVO
Falando a jornalistas numa conferência de Imprensa de balanço do VIII Festival Nacional da Cultura, Armando Artur afirmou que o objectivo do evento foi atingido, o qual passava por levar as manifestações culturais moçambicanas às comunidades.
O ministro da Cultura destacou como principais factores que contribuíram para o sucesso do festival a entrega abnegada dos artistas, a hospitalidade do povo de Inhambane, bem como a afluência do público aos locais onde decorreram as actividades culturais.
Para o timoneiro da pasta da Cultura, as enchentes que se verificaram nos locais de actuação das delegações provinciais nas cidades da Maxixe e Inhambane e no distrito de Jangamo são um sinal encorajador para o pelouro que dirige e os estimula a reunir esforços para fazer um festival melhor em 2016. “Sinto que a missão foi cumprida e este cumprimento nos coloca naturalmente um desafio de fazer com que os próximos festivais superem este que agora terminou. O nosso objectivo é ter um sucesso contínuo”, disse Armando Artur. 
O ministro Cultura destacou também como outro ponto positivo o registo da maior participação de delegações estrangeiras num Festival Nacional da Cultura, em número de seis, e acrescentou que houve necessidade de restringir a vinda de outros grupos por razões de logística, visto que Inhambane tem uma capacidade limitada de alojamento, mas também porque já se tinha atingido o número de participantes pretendido. 
Entretanto, Artur vê como falhas na organização do festival a fraca participação do público em eventos como lançamento de livros e palestras sobre literatura, motivada pela fraca divulgação dos eventos nas universidades e escolas secundárias de Inhambane, e também o não cumprimento de horários em alguns eventos, por causa das longas distâncias entre os locais de alojamento e os espaços onde decorreram as actividades.
Durante a apresentação do balanço do Ministério da Cultura sobre o festival, os jornalistas dos diversos Órgãos de Comunicação receberam medalhas de participação pelo seu empenho na divulgação do evento e porque, conforme Armando Artur, são, em parte, responsáveis pelo sucesso do mesmo.

VALDIMIRO SAQUENE, In: Notícias, Quarta, 27 Agosto 2014




Luís Bernardo Honwana


O LIVRO “Nós Matamos o Cão Tinhoso” serviu como fonte de inspiração para uma geração de escritores que mudou a dinâmica da literatura moçambicana, passando, por isso, a ser visto como um milagre na forma de retratar os fenómenos. Este posicionamento justifica-se pelo facto de a obra, cuja primeira edição foi lançada em 1964, ser apontada como aquela que inaugurou uma forma de escrever alinhada e com uma postura de afronta directa as situações que ocorriam no período colonial.
Para celebrar os 50 anos do livro, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) juntou segunda-feira contemporâneos de Luís Bernardo Honwana, o autor do livro, académicos, estudantes e leitores para lançar mais uma edição da obra, banida pelo regime colonial.
Para a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), através do seu secretário-geral, Ungulani Ba Ka Khosa, a celebração dos 50 anos desta obra não pode ser vista apenas como uma comemoração, mas um reconhecimento pela sua grande contribuição na literatura moçambicana.
“O livro não pode ser abandonado e todos temos que fazer para que ele esteja presente em todos as locais para que esteja acessível a todos os cidadãos nacionais e não só”, disse.
No evento organizado pela UEM figuras como Rui Baltazar, Mário Machungo, Álvaro Carmo Vaz, Mota Lopes e os jovens Albino Macuacua e Osvaldo das Neves deram o seu testemunho sobre a sua relação com este livro.
Na sua alocução, Rui Baltazar, que já foi reitor da UEM, disse que “Nós Matamos o Cão Tinhoso” ilustra dois milagres na história da literatura nacional, primeiro por ter sido escrita por um jovem e, segundo por se ter tornado um marco da literatura moçambicana e africana em geral.
Para Rui Baltazar, o autor deste livro, Luís Bernardo Honwana, passou a representar para Moçambique o que Cervantes representa para a Espanha, dada a qualidade da escrita, que se mantém actual 50 anos depois da sua criação.
Acrescentou que este livro não inspirou apenas aos jovens escritores moçambicanos, mas também há muitos das então colonias portuguesas, tal é o caso de Ondjaki, escritor angolano que escreveu “Nós Choramos o Cão Tinhoso”.
“O livro conseguiu aquilo que o mapa cor-de-rosa não conseguiu fazer, unir povos e gerações diferentes”, concluiu Rui Baltazar, acrescentando que o seu autor é um genuíno herói da cultura e da luta de libertação colonial.

Livro inspirou estudantes nacionais na “metrópole”
Para o antigo primeiro-ministro, Mário Machungo, “Nós Matamos o Cão Tinhoso” veio inspirar e motivar os estudantes moçambicanos em Lisboa e estes sentiram-se revigorados a defenderem os ideiais nacionalistas.
Machungo é de opinião que em 1964, quando foi lançada a primeira edição do livro, os moçambicanos e não só, sobretudo os jovens, conseguiram recuperar a sua dignidade e defenderem os seus interesses de manter digna a sua moçambicanidade.
Exemplo disso, segundo Mário Machungo, é que a obra foi banida pelo regime colonial e o seu autor preso por um período de três anos sob suspeitas de envolvimento com a Frente de Libertação de Moçambique.
“Somos contemporâneos do autor deste livro e o nosso testemunho deve-se ao facto de termos testemunhado as injustiças que marcaram a época em que o livro foi escrito. Saudar a inspiração do Luís e afirmar que a obra contínua actual”, afirmou Mário Machungo.
A cerimónia contou com intervenções dos professores Álvaro Carmo Vaz, que também apresentou o testemunho do engenheiro Eugénio Lisboa e de Mota Lopes que contaram que parte do livro foi discutida na sala de aulas onde estudaram no tempo colonial.

 Orgulho me da autoria desta importante obra
Nós matamos o cão tinhoso

No entanto, para Luís Bernardo Honwana, a diversidade de faixas etárias, estratos sociais no testemunho do livro mostra a importância que ele representa na história e a sua longevidade é justificada pelo interesse que a obra representa.
“Orgulho me da autoria do livro e reconheço a importância que muitos aqui presentes tiveram na sua valorização. Reconheço me também devedor de todos os colegas escritores que têm feito muito ainda pela literatura moçambicana”, disse Honwana.
Para Honwana a importância do livro também mede-se pelo esforço feito pela Associação dos Escritores Moçambicanos e pela UEM que decidiram dar vida a este livro que, segundo testemunhos, foi fonte de inspiração no contexto da literatura e da cultura moçambicana.

 ALCIDES TAMELE In: Notícias, Quarta, 03 Setembro 2014



17 junho 2014

FINALMENTE, Simeão Cachamba ou Thahula Ndindane, escritor moçambicano de barba rija, estreou-se em livro. E, por decisão tutelar, o primogénito responde então pelo nome de “A mão invisível que não é de Adam Smith”, uma obra poética afinal vencedora do concurso literário organizado por ocasião dos 35 anos do Banco de Moçambique, por conseguinte a entidade patrocinadora.
Dizemos finalmente porque, de facto, Simeão Cachamba não é qualquer imberbe nestas coisas de escrita e de resto toda a sua malta, maioritariamente, até já publicou mais do que um livro, um dos quais ele mesmo prefaciou, na circunstância “Vozes que falam de verdade”, a obra primeira do consagrado Marcelo Panguana.
E nisto de prefácios, os anais da literatura moçambicana têm também registado mais um de Simeão Cachamba no caso vertente à antologia de poesia intitulada “As palavras Amadurecem”, editada pelo Diário de Moçambique a propósito dos 10 anos da sua página literária, Diálogo, na qual pontificam a maioria dos grandes nomes da poesia nacional como, não podendo citar todos, José Craveirinha, Heliodoro Baptista, Armando Artur, Eduardo White, Mia Couto, Filimone Meigos, Luis Carlos Patraquim, Elton Rebelo, Daniel Macaringue, Filimone Meigos, Bassane Adamugy e, claro, o próprio dito Simeão Cachamba.
Mas, voltando à vaca fria, a última quarta-feira testemunhou, no Centro Recreativo do Banco de Moçambique, na Beira, cidade onde o poeta viu cair o seu cordão umbilical, o lançamento do “A mão invisível que não é de Adam Smith”, o que já havia aliás acontecido, ao que se depreende, mais discretamente, em Março na cidade da Matola e em Abril no Instituto Camões, na capital do país.
No evento da Beira, como de praxe, foi apresentado o autor, pela voz de Maria Pinto de Sá, presidente da Casa do Artista daquela cidade, e a obra pelo docente da Universidade Pedagógica, João Fenhane. O autor usou igualmente o microfone para falar de si e dos contornos deste projecto.
O livro de Simeão Cachamba consta de três cadernos. O primeiro leva precisamente o mesmo título da obra, enquanto os dois restantes são “A solidão que não é de Garcia Marques” e “A viragem que não é de Castro Soromenho”.
Mas a pergunta que não cala é mesmo esta:
Que estranha mão invisível que não é a de Adam Smith/Que mexe os cordelinhos da economia de Moçambique/Que é capaz de levantar tempestade num copo de água/E as leis do mercado e a propriedade desonra e magoa?
Como se impunha, convidámo-lo também a dois dedos de conversa sobre a obra que acabava de lançar e sobre o estágio da nossa literatura nos dias que correm e quejandos.
Começámos mesmo por pedir ao autor que se explicasse sobre a escolha de um título tão sugestivo como este: “A mão invisível que não é de Adam Smith”. E a reposta, sem evasivas, veio nos seguintes termos:
“Há um filósofo chamado Adam Smith, considerado o pai espiritual da economia, cujo livro referencial intitula-se ‘A riqueza das Nações’. Nesse livro, Adam Smith fala dos pressupostos da economia de mercado e uma das coisas que diz é que o interesse geral de uma sociedade pode ser realizado pelos interesses particulares, por exemplo, quando um padeiro faz pão resolve o seu problema mas acaba resolvendo também o problema dos outros.
 Existe, por conseguinte, uma mão que a gente não vê mas que traz soluções para os nossos problemas. Mas não é dessa mão que falo neste livro, daí o título “A mão invisível que não é de Adam Smith”.
Tributo ao jornalista Santos Artur
E o que é que o livro em si nos sugere?
Como sabemos, o nosso país enveredou por um sistema de economia centralizada que no entanto deu no que deu. Fizemos depois uma reviravolta. Então, este livro fala das coisas que aconteceram entre a Independência Nacional e o período em que entramos para a economia de mercado.
Numa leitura rápida do livro deparámos, de forma algo surpreendente, com o poema “Reza Emília” (pág. 47) à memória do jornalista Santos Artur, citado como autor de uma notícia sobre o apodrecimento de feijão nos armazéns da Companhia Grossista de Produtos Alimentares (COGROPA) que induziu o Presidente Samora Machel ao lançamento da Ofensiva Política e Organizacional no termo da sua visita à cidade da Beira em Janeiro de 1981. O que é que se passou afinal?
“Sim, foi mesmo assim. O presidente Samora Machel desencadeou a Ofensiva Política e Organizacional no termo da sua visita à cidade da Beira em Janeiro de 1981, na sequência de um artigo do nosso colega Santos Artur sobre o apodrecimento de feijão nos armazéns da COGROPA. O Santos Artur saiu da redacção com a Celeste, repórter-fotográfica, para uma reportagem e voltou com a história desse apodrecimento de feijão no armazém da COGROPA, numa altura em que o presidente Samora estava de visita à Beira. Eu era chefe da reportagem e disse ao Santos que fosse para casa e que se houvesse problemas no dia seguinte depois de o artigo sair que ele permanecesse em casa. Eis que, no dia seguinte, o presidente Samora começa o seu comício na Manga, precisamente fazendo alusão a essa situação do feijão apodrecido. A partir dai, regressado a Maputo, desencadeou as famosas ofensivas a várias instituições. Foi marcante e achei que podia fazer essa dedicatória ao Santos Artur neste livro e nesse poema”.
Santos Artur foi um proeminente jornalista do Noticias da Beira que mais tarde passou a designar-se Diário de Moçambique. Até à data da sua morte desempenhava as funções de Delegado do Jornal Notícias na Beira.
Olhando para o percurso de Simeão Cachamba, que já vai longo, fica a ideia de que estamos perante uma estreia tardia ou nem por isso. Sobre o assunto, ele responde:
“Embora eu já escreva desde a minha adolescência, de facto, não avancei para a publicação em livro, talvez porque tendo entrado cedo para o jornalismo não tenha tido muito entusiasmo para a publicação. Como jornalista, depois de transferir as minhas coisas para o papel quase que ficava por ai. Depois aconteceu eu ser o primeiro coordenador da “Diálogo”, a página literária do Diário de Moçambique, então passei a servir os outros. Mesmo ai publicava os meus textos, mas apenas para tapar buracos. Na verdade não me posso queixar de falta de oportunidades porque também fui gestor de empresas jornalísticas (Diário de Moçambique e Tempográfica) mas sempre evitei pôr as minhas coisas à frente. Também não tinha assumido ainda que devia publicar. A minha relação com a literatura foi sendo assim”.
Mas depois veio a pressão de amigos, colegas e outras pessoas que sabem que Cachamba escreve, daí ter decidido arrumar alguns trabalhos literários por afinidade temática e a passá-las para o computador.
E enquanto fazia a arrumação, eis que se depara com um anúncio do Banco de Moçambique, dando conta de um concurso literário. O tema era livre mas encorajava assuntos de economia. Como tinha muita coisa sobre isso, ele decidiu concorrer, tendo saído vencedor do concurso, que mais tarde deu no presente livro.
Mas agora que tudo começou, o resto só vai fluir, eis a questão. E a resposta:
“Para começar, como o concurso do banco impunha algumas limitações há muita coisa que ficou de fora e que poderei reaproveitar para futuras oportunidades. Mas tenho outro material literário, contos e projectos de novelas até para que as pessoas não pensem que a economia é a minha única musa.
Procuramos saber a razão do livro poético, pois, afinal quem conhece este autor sabe que tem um forte cunho de prosa.
“Se calhar esteja a seguir a mesma ordem. Eu comecei por escrever poesia e só depois entrei na prosa. Por isso, quem sabe, a prosa pode estar a caminho”.
Sobre a saúde da literatura moçambicana, o escritor fala dos desafios que existem sobretudo na componente temática e no campo da edição e publicação de livros.
“Penso que há dois grandes desafios. O primeiro está do lado dos próprios fazedores. Não há muita diversificação de temas. A nossa sociedade é rica de problemas que não aparecem reflectidos no espelho da literatura. Podíamos ter romances policiais, inspirados, por exemplo, naquela coisa do G20 que se falou muito. Há um certo afunilamento de temas mas se calhar com o tempo isso se ultrapasse. O outro desafio está do lado da publicação. É constrangedor que o próprio autor tenha que andar à procura de patrocínios para publicar as suas obras. Acaba fazendo mal uma das coisas. A edição de livros é uma espécie de fauna acompanhante. O estado tinha que repensar a maneira de realizar o seu compromisso com a literatura. É verdade que existe o Fundo Nacional para o Desenvolvimento Cultural (FUNDAC), mas não sei se o modelo que adopta é o mais adequado. Eu pergunto: qual é o foco? O autor? A obra? A editora? Não sei se não seria mais eficaz se esses recursos fossem unificados numa única base. Se calhar a coisa funcionasse de forma mais fluida”.
O Ministro da Cultura é poeta. Isso faz alguma diferença? Há dias um grupo de músicos sugeria ao candidato da Frelimo às eleições de Outubro que o próximo Ministro devia ser um músico. O que lhe parece, questionamos, ao que nos respondeu: “Penso que um Ministro tem que ser um bom gestor. O artista é artista. Está para produzir arte, ele não vai lá cantar, escrever ou esculpir. Pessoalmente, acho que ter um ministro artista não é garantia de que as coisas vão melhorar. A garantia só pode vir da mudança de procedimentos. Há um pensador, de que já não me lembro o nome, que diz que à medida que a pessoa vai subindo vai atingindo o seu nível de incompetência. Aí vai perder tudo. E não teremos nem bons gestores nem bons artistas”.
A Beira já deve ter um prémio cultural
A legislação autárquica confere responsabilidades aos órgãos municipais para realizarem também acções que de alguma maneira contribuam para a exaltação dos valores culturais locais.
Nesta esteira, o nosso poeta manifesta a sua preocupação pelo facto de isso não estar a acontecer, neste caso numa cidade como a Beira que já produziu grandes nomes da cultura moçambicana, inclusivamente um prémio Camões, que é o caso de Mia Couto, escritor natural desta cidade. E outros nomes como Shikane, Carlos Beirão, David Mazembe por aí fora.
E a comparação é mesmo inevitável neste particular: A cidade de Maputo tem, por exemplo, um prémio 10 de Novembro. Por que é que a Beira, que é a segunda maior do país, não pode ter um prémio similar? Eis a questão.
“A Beira, além da tradição que tem nesse sentido, conta hoje com uma série de instituições académicas e um tecido empresarial que pode muito bem comparticipar num projecto desta natureza. Isso serviria também para criar referências para a juventude que bem precisa disso. Falo de um prémio como falaria da toponímia. Por que é que não se pode avançar para a atribuição de nomes de figuras da cultura às ruas ou avenidas?”, indaga.
Thahula Ndindane
Um dos momentos mais emocionantes da noite de quarta-feira terá ocorrido quando o autor, no uso da palavra, explicou a origem do pseudónimo Thahula Ndindane.
Contou o poeta que entre os seus irmãos foi o único a quem foi dado um nome que vinha da sua linhagem matrilinear. O Simeão.
Vai acontecer que o pequeno Simeão só chorava, chorava e não parava de chorar.
Como não podia deixar de ser, era preciso saber o que se passava com o menino até que um nhamussoro (curandeiro) recomendou: tem que lhe ser dado o nome do seu progenitor, Thahula Ndindane. Assim aconteceu e assim terão parado os choros.
Já adulto e quando foi então a vez do concurso literário do banco e era solicitado que os trabalhos fossem assinados por um pseudónimo, nem mais, Cachamba preferiu resgatar o Thahula Ndindane.
E agora esta: Vencido o concurso e chegada a hora do livro, perguntou-se ao autor se não teria chegado a altura de assiná-lo pelo seu nome verdadeiro, Simeão Cachamba.
A resposta foi tão-somente a seguinte: “Antes que eu entre outra vez em crise de choros é melhor mesmo continuar a assinar Thahula Ndindane. (Risos) E aqui está então “A mão invisível que não é de Adam Smith”, de Thahula Ndindane!
Eliseu Bento